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quarta-feira, 30 de maio de 2012

As religiões do amor 2/5

75   Em uma outra vida, eu seria sua garota, nós manteríamos todas as nossas promessas,

seriamos contra o mundo e faria você ficar

Então, eu não tenho que dizer que você era aquele que deixei escapar.
[Katy Perry]


(2/5)



A sua morte estampou dentro de mim uma raiva, que sofria, como se fosse viva, dentro do meu peito e destruía cada parte do meu imaginário coração. Em instantes não soube o  que era amor e decepção, não sabia diferenciar o ódio da paixão. Juramos amor eterno e pedimos a benção para tudo, até, todo o nosso sofrimento de amor e as nossas conquistas de paixão, terminarem daquele jeito, dentro de um caixão.




Desde então, pensei se seria esse o modo correto para aquela morte terminar. Se for a nossa religião a certa, ela, que diz ter abençoado nosso matrimônio, mas acabou por arruinar. Se enterrar o meu amado, o resto do meu amado, numa celebração católica e cheia de fervor, em local com túmulos com anjos com espadas, em cavalos, em guerra e em oração. Só de imaginar, aquilo me tomou por inteira, sendo que me arrepiava e me entristecia.

Lembrei-me do momento, que abri a porta da sala do consultório e os meus olhos bateram nele, minhas pernas pararam porque eu não lembrava sua existência. Acenei com a mão esquerda, meio que desajeitada, e permaneci com a minha caminhada em direção ao balcão quando todos os papéis, em minha mão, caíram ao chão e ele, como se esperasse por aquele momento, veio prestar a sua bondade, saindo de seu cômodo lugar para catar todos os papéis. A recepcionista indicou que a doutora estava pronta para atendê-lo e eu com a minha ingenuidade estranhei o que poderia ele querer em uma mastologista. Tamanha foi a minha inquietação que eu acabei por perguntar e ele com o seu sorriso enigmático, fincou os seus olhos aos meus.

Depois da lembrança, desci as escadas, não como as pessoas esperavam: de luto. Mas desci, pelo luto do meu amado, decidida que enfrentaria uma guerra. Ele seria cremado e viraria cinzas, e pó, assim como veio ele. Lá estavam todos os seus amigos e parentes que, de certa forma, não iriam entender o motivo de tal decisão, mas a minha lembrança era forte e me fazia ver que cada pedido dele, de agora em diante, deveria ser respeitado.

Não disse nada, apenas olhei para todos e comecei contar a história da nossa viagem do primeiro ano de namoro. Nessa viagem fomos aos EUA e visitamos a Hollywood Forever, um dos cemitérios famosos do mundo, e nele pensamos na vida, refletimos sobre os nossos atos e contamos, um ao outro, as histórias de infância, adolescência, juventude e os planos para o futuro. Descrevi que nessa conversa ele me disse que tinha medo da morte e ela, para ele, era desconhecida, assim como, não sentia bem em imaginar que um dia iria ser enterrado e ficar com terra acima dele e sete palmos debaixo dela.

Percebi, pelos olhos de cada qual que estava dentro daquela sala, as interrogações escritas em suas mentes, querendo saber onde eu queria chegar com todas aquelas histórias. Por fim, quando todos já estavam cansados, disse que deveriam ir para as suas casas, sofrer seus lutos em solitário, que não haveria uma cerimônia latina de terminação vital, segundo a sua vontade.

Respeitando o que foi dito, todos foram e ao fechar a porta veio-me a lembrança do nosso casamento. Depois que nos foi perguntado se estávamos dispostos a amar uma ao outro, seguimos, dentro de um carro, como dois desconhecidos, a vergonha nos matou e calou as nossas bocas e ficamos imutáveis, durante muito tempo, até o fim de linha, que era a nossa festa de celebração à morte de nossa vida antiga.


8 comentários:

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    1. Eu agradeço pela inteligencia de seu comentário.

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    2. assim sabemos quem realmente leu o texto kkkkkkkkkkkk

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  2. Não sou de acreditar em religiões. Na verdade, não gosto nada. As reflexões são sim, válidas, mesmo vindo de alguém tão diferente de mim. Algumas crenças dizem que o espírito do morto não abandona de imediato o corpo após a morte, por isso eles não cremam seus defuntos. Segundo eles, o morto sentiria a dor como se estivesse vivo, por causa do apega à materialidade. Esse primeiro comentário foi realmente um saco. Demoramos um tempão para escrever, da melhor forma possível, para alguém aparecer e fingir que leu, affe.

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    1. Realmente, isso é uma pratica, que hoje temos a representação,desde os tempos Antigos. No Egito verifica-se o apego ao material e o corporal com as mumificações.E partindo do pressuposto que as religiões não são novas, que elas fazem apenas uma nova leitura do que já foi religiosamente praticado, assim essa é uma tradição que mudou,mas permanece com o principio do apego ao corpo.
      Quero agradecer pela sua publicação, de fato inteligente, e sem artimanhas...

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  3. Bem, acredito que temos sim que refletir... a função de religar da religião infelizmente tem sido deixada de lado por outros propósitos, como o ganhar $$$$$, ajuntar bens e etc. Bem, eu acredito sim que no outro lado da vida há uma vida que será melhor pra alguns e pior para outros mas como é difícil pra quem fica aceitar a partida de alguém muito amado e querido!

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    1. O proposito das religiões e fazer do individuo um ser melhor dentro de seu mundo e sua sociedade.Todas eles trabalham a humanidade, com a intenção o de tornar o mundo melhor. Mas, realmente o Money, hoje, tornou-se mais interessante e almejado.Obrigado pelo comentário, este blog agradece....Sim as suas palavras verdadeiras ajudaram a valorizar este trabalho.Agradeço, verdadeiramente, pela inteligencia do comentário e pela grande sacada de "coments" lá no primeiro.

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  4. nossa! realmente, um texto forte que faz com que reflitamos sobre nossos sentimentos e perspectivas...abçs

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