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sábado, 21 de dezembro de 2013

Avesso



Aprendi caminhar com as minhas próprias pernas, que o tempo é incontrolável mas o homem tenta impor os seus controles, que o futuro começa em todo momento, que o passado já foi o que seria e que o presente será o que já foi. Aprendi viver com a sua falta, cultivar uma nova vida; consegui entender que eu preciso me amar para que tu venha e "me ame"; convivi com a falta eterna de teus braços, enlouqueci completamente em outros.

Aprendi que um século não tem cem anos, que ele pode ser breve, seja ele como for; poder ser vinte poucos anos. Vivi coisas triste e aprendi a aprender a convivência da tristeza ao lado da alegria, só existe um lugar para o novo, ao lado do velho. O novo sempre é triste, ele vem para romper com a velha ordem, para provocar desordem, para promover uma desequilibração; o tapete foi puxado, quase caí, mas aprendi. 

Abracadabra,"Rapte-me Camaleoa", na entoca do lobo mau uma velha velhinha vem saindo, caminhando, andando rasteiramente por entre as águas ou sobre as águas. É o sinal do fim dos tempos, "é o apocalipse", é chegada a hora de romper com a velha ordem, inaugurar uma outra. Aprendi que viver é aplaudir, mesmo que não tenha o porquê, aprendi que a vida é uma jogada multiculturalista em uma roda gigante, que aquela velha é a peça da vez. Idnerpa caminha mais rapidamente, chega ao ponto que visualiza um espelho e nele, com o próprio sangue, escreve seu nome. A sua velha coluna já não aguenta mais, teus braços já não me aguentam mais, o seu velho coração já não me ama mais; agora, buscarei sanidade em braços de outros.

Aprendi que os outros constituem o inferno, que chorar é uma ferramenta para se humilhar e que a humilhação é um dos elementos da glorificação. Idnerpa está glorificada e me ensinou que não existe rir sem dor, porque quando há sofrência percebe-se a ausência de seu oposto. Não há contrário sem o lado normal e não há essencial sem desnecessário.

O lado normal poderia ser anormal e, então, o lado anormal seria o normal; poderíamos glorificar aquilo que está em baixo e descartar o de cima; poderíamos privilegiar a custura, mostrar as rebarbas, explanar os defeitos. Poderíamos não fazer o reboco, não passar maquiagem; não haveria necessidade de limpar o chão, o piso branco; poderíamos colocar uma janela de vidro para ver os formigueiros e perceber o que a Rainha faz.

Mas, enfim, aprendi que a vida é uma representação, não é possível ver o mundo ao contrário; não se consegue ler o  nome de Idnerpa no espelho (ele está pelo averso); não porque não tenha como, mas, pois, não queremos, não deixamos e, pelo contrário de Obama, não podemos.

15 comentários:

  1. Não existe riso sem choro. E não há aprendizado sem erro. Abraços e sucesso com o blog!

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  2. Viver é aplaudir... então palmas pelo belo texto!!!!
    Obrigada pela visita e sucesso em teu blog!

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    1. OBGD Rejane! Muito obrigado a sua presença me trouxe muita alegria... Eu te agradeço também!

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  3. Bela postagem, aprender é algo contínuo e nada linear, é ai que está o mistério, é ai que está a beleza.

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  4. O sofrimento nos dá a possibilidade de reflexão e assim aprender. Muito bom seu texto!

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