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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Os eternos entre-lugares

Talvez alguém tenha dito, alguma vez, que queria estar fora do Brasil como forma de fuga de algum sofrimento, sentimento ou opressão. Talvez o exterior funcionasse como rota de escapatória para sair do inferno nos trópicos, caminhando  para um outro desenvolvido que seria uma espécie de céu. Essa rota de fuga transforma-se em sonhos e os esses quando tornam-se realidade têm seus defeitos.


Por completar um mês de experiências vividas em Portugal, percebo que o céu não é tão azul quanto pareceu-me aos sonhos. Não que aqui esteja preto e branco, ou que tudo seja um eterno inferno, mas há alguns sofrimentos, sentimentos e opressões que permanecerão aonde quer que vamos. Essas três entidades aqui chamarei de um entre-lugar, entre aqui e ali, entre essa, esta ou outra identidade.

Há algumas identidades que permanecem sendo esmagadas e esse esmagamento transforma-se, ganha novas fronteiras e intensidades. Não é tão fácil ser negro na Europa quanto no Brasil, mesmo que do outro lado do Atlântico já não seja a melhor das situações, mas há semelhantes, mesmo que eles (muitas das vezes) não se considere como.

E nesse momento você pergunta: E não há negros na Europa? Há sim, mas eu retorno ao entre-lugar. Existe uma outra identidade que dificulta a socialização por entrega e inteiro a esses. A maioria dos estrangeiros com pele negra são da África, mais precisamente, dos países em que há uma criminalização da homossexualidade e o pensamento dos filhos dessas pátrias é semelhante ao das pátrias e agem em defesa das leis, criterios "cultura" de seus povos. Como ter uma entrega e agir naturalmente com alguém que pensa que você deveria estar morto?

Como não bastasse essas duas, aqui nasce um outro entre-lugar: ser estrangeiro. Em todo mundo europeu/português as pessoas (generalizando) da terra acreditam que seu papel ali é para tomar os seus empregos e trazer mais ou novos problemas para dentro da fortaleza feudal chamada Europa. Aqui, todo aquele que não é europeu e tratado com estranheza e cabe a você a construção de uma identidade nova, que será baseada na exclusão, no mau tratamento ou piadas. Ser estrangeiro é uma construção re-construída diariamente e mesmo que a estranheza não seja em todos os casos, o modos operandis de piloto automático bélico já está ligado.

Entre todas as fronteiras de definição de identidades, entre o estranho e as estranheza, entre o feliz e o infeliz, entre o diferente e o indiferente, entre todos os entres e entre todos os entre-lugares que nasce todo dia, a primeira lição desse intercâmbio já foi aprendida, é melhor ser brasileiro no Brasil do que em qualquer outro lugar.

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